Os livros de 2021 (até agora)
23:39:00Durante a minha licenciatura enfrentei uma grande crise literária - como já estava, metaforicamente, a afogar-me em apontamentos, artigos científicos e ensaios, a última coisa que queria, quando chegava a casa no fim-de-semana com uma mala de roupa para lavar, era voltar a perder-me por entre páginas e capítulos. As poucas obras que conquistaram o meu coração precisavam de ser, no mínimo, imperdíveis e carismáticas, para cativar a pouca paciência de uma estudante de Jornalismo e Comunicação.
No entanto, mal as aulas terminaram e voltei a ser um "elfo livre", o gosto pela leitura que me tinha abandonado após a adolescência regressou em força e o cartão mais utilizado da minha carteira voltou a ser o da biblioteca.
O S L I V R O S D E 2 0 2 1
(A T É A G O R A)
«E S T Á S A Í?», por Dolly Alderton: É uma comédia romântica no seu estado mais puro, com todos os ingredientes que nos deixam presos a este tipo de narrativas: a protagonista carismática, a cara-metade que tem tendência para borrar a pintura, o grupo de amigos icónico e imprescindível e uma história com uma certa profundidade, mas não demasiada.
A figura central de «Estás Aí?» é Nina, uma escritora londrina que decide instalar uma aplicação de encontros, após completar trinta anos. O primeiro homem com quem troca algumas palavras, Max, rapidamente a deixa com a cabeça nas nuvens, apesar de todas as bandeiras vermelhas que vão sendo erguidas durante a jornada. Simultaneamente, Nina tem de aprender a conjugar uma amiga casada e grávida que parece não ter paciência para a sua vida de solteira, um progenitor que sofre com uma doença neurodegenerativa e um convite para ser madrinha de casamento do seu ex-namorado de sete anos.
«T U D O O Q U E S E I S O B R E O A M O R», por Dolly Alderton: Não adorei a primeira metade do livro e, por esse motivo, levei quase dois meses a terminá-la. Durante as primeiras cento e cinquenta páginas, Alderton reflete sobre uma adolescência onde as suas prioridades foram os rapazes e a bebida, para mais tarde crescer e passar a ser uma estudante universitária cujas prioridades continuavam a ser os rapazes e a bebida.
Talvez por não me identificar com o estilo de vida, ou por ficar desagradada com os relatos caóticos, vazios e irrelevantes de uma fase onde ela realmente não sabia nada sobre o amor, sentia-me pronta para desistir do livro e continuar com a minha vida como se nada fosse. Felizmente, Dolly deu a volta à sua vida recorrendo à magia que é a terapia - e nada foi mais divertido e ilucidativo que ler sobre estas consultas e sessões - e voltou o foco para as suas amizades, para a sua carreira e para as suas relações, que já continham em si uma profundidade significativa. Percorri essa segunda parte no espaço de dois dias, porque me soou a algo aconchegante e porque a prosa deixou de estar envolta numa espécie de neblina que nos mantinha a 50km de distância da autora.
«2 0 P O E M A S D E A M O R E U M A C A N Ç Ã O D E S E S P E R A D A», por Pablo Neruda: Pablo Neruda é sempre uma boa opção. É a companhia certa para nos lembrarmos de todas as histórias de amor que já lemos, vivemos e observámos de longe. Os poemas 18 e 20 são magníficos - regressarei a eles de certeza absoluta, pelo modo como falaram comigo.
A audácia de o ler na língua original - o espanhol - também se mostrou ousada da minha parte, visto poesia clássica já ser complicada de absorver na nossa língua nativa. No entanto, há alguma coisa na poesia que me faz acreditar que ela tem de ser lida da forma como foi escrita.
«L I V R O D E M Á G O A S», por Florbela Espanca: Estudar português - quando eu estava no secundário - significava conhecer um grupo seletivo de escritores e poetas, todos eles homens (e todos eles excelentes no seu trabalho), e ficar a questionar onde estariam os testemunhos e as histórias de mulheres como Florbela. Lamento muito não a ter lido quando era mais nova e não ter dissecado as suas palavras numa sala de aula, porque elas merecem ser entendidas, discutidas e analisadas de todos os ângulos possíveis; mas estou feliz por me ter cruzado com ela quando julgo possuir a sensibilidade suficiente para compreender os seus poemas.
O talento de Florbela para retratar a tristeza e a solidão é único. É impossível não sentir compaixão por ela, ou não nos identificarmos com a sua forma de sentir as emoções menos positivas - que todos possuímos enquanto seres humanos e que também possuem uma beleza peculiar, enquanto componentes da nossa história -. É como um pedido de ajuda, como o prólogo de um conto-de-fadas.
«O E S T R A N H O C A S O D E B E N J A M I N B U T T O N», por F. Scott Fitzgerald: A narrativa não faz sentido - absolutamente nenhum. Ainda assim, o conceito é pioneiro e torna-se fascinante por esse motivo. A magia de Fitzgerald está lá, como sempre é automático e institivo ver a história desenrolar-se à nossa frente em tons de dourado. A falta de lógica faz com que o conto seja quase uma comédia por momentos e uma tragédia no seguinte.
Benjamin nasce com o aspeto e as capacidades de um homem de 70 anos e, por mais que a família queira negar o ocorrido, no seu vigésimo aniversário os factos tornam-se demasiado claros: Button está a envelhecer ao contrário. Como é que esta história é sequer possível? Mesmo hipoteticamente? Não é - mas fica a ideia de que não precisa.
«A S O N D A S» por Virginia Woolf: Fechei a última página com a sensação de pertencer a alguma coisa maior que eu e com a certeza de ter encontrado um pouco daquilo que sou em Bernard, Jinny, Louis, Susan, Neville e Rhoda - os protagonistas.
O desenrolar d'As Ondas faz com que os acompanhemos durante toda a vida e possamos compreender quem são aqueles seres tão complexos e tri-dimensionais que vivem do outro lado. Bernard tem alma de poeta e é apaixonado por palavras, Jinny é uma mulher hedonista digna de um romance de Oscar Wilde, Louis passa demasiado tempo preocupado com a imagem que os outros têm de si, Susan só quer voltar para casa, Neville vive para estar apaixonado e Rhoda perde-se no mundo no espaço de um segundo - e todos eles sou eu; e eu sou todos eles.
É um romance dedicado à identidade e à individualidade - que existe mesmo quando estamos em grupo - e à harmonia e ao conflito que tornam as memórias dignas de serem relembradas. Não é sobre pessoas perfeitas, amores perfeitos, amizades perfeitas e, por esse motivo, é muito violento ao mesmo tempo que é extremamente suave. Nunca me deixou impávida, serena e distante - impactou-me e, enquanto arte, creio que tenha cumprido o seu propósito por esse motivo.
«N O R M A L P E O P L E» por Sally Rooney: Fazendo uma breve sinopse, Pessoas Normais é um testemunho de amor - Connell e Marianne são dois adolescentes apaixonados que, como todos os outros, têm o hábito de complicar o que é fácil (possuem um talento especial no que toca a esta arte, admito). E, à medida que os páragrafos avançam, Connell e Marianne passam a ser dois jovens adultos que não se conseguem livrar de hábitos antigos. É uma narrativa crua e impetuosa, não há forma de o negar, e a descrição de uma ligação amorosa tão bruta, insensata e disparatada foi algo que apreciei bastante - porque essas características também fazem parte de uma relação íntima e são, muitas vezes, ignoradas quando chega a hora de representar culturalmente a ideia de paixão, amizade e/ou amor.
A peculiaridade do livro é o facto de ser demasiado fácil odiar os dois personagens que, à partida, seria suposto adorarmos - não me interpretem mal, ambos despertaram em mim um sentimento de compaixão, mas a irracionalidade e impulsividade com que ambos pautam as suas ações e decisões (especialmente quando estas dizem respeito ao outro) são, quase sempre, frustrantes e difíceis de compreender. No entanto, mesmo não morrendo de amores por Connell e Marianne, rendi-me por completo a Pessoas Normais - talvez porque, como me farto de dizer, tenho alergia a finais felizes e ocos -, se há alguma coisa que a história não é, é um conto de fadas meticuloso, perfeito e aborrecido.
«C O N V E R S A S E N T R E A M I G O S», por Sally Rooney: Tenho 'mixed feelings' sobre Conversations with Friends. Quando estava a meio, achei que ia gostar mais do que de Normal People e depois... não gostei. Mesmo que o storytelling da Sally Rooney tenha uma personalidade e uma dimensão tremendas e ela saiba pegar em situações reais e pessoas reais e torná-las num objeto digno de protagonista de best-seller - sinto que não aconteceu absolutamente no livro e, por esse motivo, soube-me a pouco.
A narrativa é complexa e tem todo o potencial para ser trágica, arrasadora e reacionária; mas fica em lume brando o tempo todo. Ainda assim, não desgostei e classifico os dias que passei na companhia da Frances e da Bobbi - que por sua vez estavam demasiado ocupadas a enlear-se na vida privada do Nick e da Melissa - como momentos em que estive bastante entretida.
Quinlan, conhecido como um “pinga-amor”, vê o seu casamento ameaçado, a sua reputação destruída e o seu emprego de sonho desaparecer-lhe por entre os dedos, após várias denúncias contra ele surgirem na esfera pública. Acusado de ultrapassar os limites por várias vezes, servindo-se da sua posição hierárquica para tal, “Q” mostra-se ser um indivíduo com uma bússola moral ambígua e, no decorrer da narrativa, somos constantemente confrontados com as questões «Será que ele sabia o que estava a fazer?» e «Como é que alguém pode ser tão inconsciente e arrogante dentro deste contexto?».
Também Margot não tem as respostas. “M” passa pela história questionando a sua lealdade para com o seu melhor amigo e a analisar todas as suas conversas passadas, buscando por indícios que possa ter ignorado.
A qualidade do storytelling de The Goldfinch é absolutamente inacreditável e torna quase impossível não mergulhar nesta história por completo. A personagem principal, não sendo necessariamente o miúdo-homem mais carismático do século, desponta simpatia e compaixão de um modo quase inconsciente e, mesmo quando não se passa absolutamente nada de interessante, a descrição da sua vida é fascinante.
«A S T R E E T C A R N A M E D D E S I R E», por Tennessee Williams: Stella e Stanley, um jovem casal americano da década de 1950, recém-casados e a tentar construir uma família, são surpreendidos por Blanche - irmã mais velha de Stella, falida e mentirosa compulsiva -, que pretende ficar hospedada em sua casa por tempo indeterminado.
A Streetcar Named Desire, enquanto peça de teatro, é uma verdadeira montanha-russa, que nos impossibilita de ter uma opinião formada sobre qualquer uma das personagens até ao final, quando tudo se torna feio demais, trágico demais, triste demais.
É uma história onde todos são vítimas e todos são seres humanos absolutamente horríveis: ao mesmo tempo. Explorando o papel da mulher, a homofobia, a sexualidade, entre outros... é um autêntico pesadelo do início ao fim e é isso que confere ao livro o seu estatuto icónico.
«L E I T E E M E L», por Rupi Kaur: 200 páginas que a Rupi Kaur utiliza para nos relembrar de clichés que nunca deveríamos ter esquecido (mas às vezes esquecemos) - não é particularmente original e revolucionário, mas não deixa de ser bonito e verdadeiro.
Acredito muito que a urgência da poesia contemporânea está aqui: no seu caráter simples e brutalmente honesto. Não existem metáforas rebuscadas, nem comparações absurdas - tudo é claro como água e tudo tem o propósito de nos trazer de volta a casa, quer seja pelo caminho mais fácil, ou mais confuso.
«Y O U R S O U L I S A R I V E R», por Nikita Gill:
«if you love a wild thing
have the courage to leave it
as wild as you found it»
Nikita Gill é uma das minhas poetisas contemporâneas favoritas, pela sua capacidade de fabolar a existência humana - porque às vezes é preciso relembrar-nos que também podemos ser forças da natureza.
Não é inesquecível, nem transfomador. Quanto muito é refletivo e reconfortante. E isso é mais que suficiente.
have the courage to leave it
as wild as you found it»
Nikita Gill é uma das minhas poetisas contemporâneas favoritas, pela sua capacidade de fabolar a existência humana - porque às vezes é preciso relembrar-nos que também podemos ser forças da natureza.
Não é inesquecível, nem transfomador. Quanto muito é refletivo e reconfortante. E isso é mais que suficiente.
«O P I N T A S S I L G O», por Donna Tartt: Dá para fingir que não demorei 7 meses a ler este livro? Wow... simplesmente wow.
É singular a forma como Donna Tartt nos apresenta as amizades, os romances, as tragédias, o mistério e até como descreve um simples lugar; durante a primeira metade do livro não fazia ideia até onde a narrativa me ia levar ou qual a sua temática e, mesmo assim, estava a divertir-me imenso a descobrir.
De zero a cinco é dez.
«M Y D A R K V A N E S S A», por Kate Russell: é... pesado. Cheguei a meio e forcei-me a fazer uma paragem de um mês, porque não estava preparada para lidar com o resto da história, não estava preparada para acompanhar a Vanessa e vê-la lidar com a dor e o trauma, que resultam da sua relação com um professor duas décadas mais velho que ela.
É sobre isso que este livro fala, não é? Sobre como não é fácil analisar as situações quando és a personagem principal e como, mesmo sem darmos conta, há acontecimentos que marcam e mudam a nossa maneira de ser. E eu queria tanto entrar na história e falar com ela, abraçá-la, chamá-la à razão e protegê-la - como se ela fosse uma amiga que precisa desesperadamente de alguém que não a abandone.
Um livro perfeito para perceber que há narrativas que não podem continuar a ser romantizadas, à custa do sofrimento das vítimas.
«V E R M E L H O, B R A N C O E S A N G U E A Z U L», por Casey McQuiston: Há muita coisa que pode ser avaliada neste livro, se olharmos para ele tecnicamente e o analisarmos através de um microscópio metafórico: a narrativa não é a melhor, não existe propriamente um conflito visto que as personagens principais nunca sofrem consequências ou dilemas por nenhuma das suas ações (e se pensamos que isso vai acontecer, em meia página tudo volta ao seu estado constante de harmonia) e lógica e burocraticamente as realidades representadas (Família Real Britânica/ «Primeira Família dos EUA») estão romantizadas ao ponto da história ser impossível.
NO ENTANTO, «Red, White & Royal Blue» deixou-me FELIZ (não valerá isso mais que ser um aborrecido clássico intemporal que fala muito e não diz nada?). Percorri o meu caminho por entre as suas páginas com um sorriso tolo no rosto, porque é um livro adorável, que está bem escrito e serve o seu propósito - ser uma história de amor para jovens-adultos. As personagens têm várias dimensões, relações, pontos de vista, maneiras de ser; são confusas e desorganizadas como seres humanos normais e a única reação possível aos seus testemunhos é torcer por elas com todas as nossas forças.
Henry e Alex, são as pessoas mais fixes que eu conheço e nem sequer existem.
«K I T C H E N», por Banana Yoshimoto: Encontrei «Kitchen» ignorando o primeiro mandamento da literatura, «não julgarás um livro pela capa». Estava pousado numa estante da biblioteca, exibindo o design mais bonito e cativante que eu alguma vez já observei na minha modesta carreira de leitora compulsiva e, após um debate interno sobre se deveria ouvir a voz da minha consciência (ou as estratégias de marketing das Edições Asa) ou não, requisitei-o não sabendo absolutamente nada sobre ele - tirando o facto de ter sido escrito por alguém chamado Banana, o que também é sempre giro.
Apaixonei-me na primeira página, pela facilidade que há em voar sobre os capítulos de ambos os contos. As duas narrativas são descomplicadas, suaves, nostálgicas e simplesmente lindas. Sei que o conceito de «saudade» está associado ao modo de existência português, mas nenhuma palavra se encaixa melhor neste pequeno e fascinante livro japonês de 1988.
O primeiro conto - Kitchen - ganhou o meu coração por completo. Por ser amoroso e ligeiramente estóico, por ter a ousadia de mostrar que há beleza na tristeza e na solidão. A jovem Mikage perde a sua família e encontra refúgio com os seus vizinhos, Yuichi e a sua mãe, Eriko, uma mulher transexual. E é sobre isso que a história fala: refúgio, intimidade, conforto.
Adorei. Obrigada à minha futilidade por me fazer trazer para casa um livro bonito. Compensou.
Ariel não é o livro mais fácil de compreender e foram muitas as vezes que tive de reler os mesmos poemas três e quatro vezes só para tentar perceber a mensagem principal. O foco no entanto está sempre presente - a tristeza. Mesmo com palavras complicadas, é possível sentir a falta de harmonia e paz que acompanham toda a obra.
"The Rival", "Daddy" e "Lady Lazarus" são estrondosos.
«O P R I N C I P E Z I N H O», por Antoine De Saint-Exupéry: Sinto que toda a gente leu «O Principezinho» em criança menos eu - que o acabei de ler neste preciso momento, a um mês de completar 22 anos. É um marco cultural e um ícone, uma presença constante nas estantes de todos os meus amigos (e agora na minha), e eu fartei-me de ver a festa acontecer ao longe.
Adorei, mesmo não sendo o público-alvo. Fiquei com a sensação que este conto é o irmão mais novo d' O Alquimista, por serem ambas histórias simples e pesadas (ao mesmo tempo) e revolucionárias e apaziguadoras (ao mesmo tempo).
Podia tê-lo lido mais cedo? Podia, mas quem diz que 21 anos e 11 meses é má idade para se ler O Principezinho?
«A S O C I E D A D E D O S P O E T A S M O R T O S», por N. H. Kleinbaum: Dead Poets Society é um dos meus filmes favoritos - pelo que comecei este livro com as expetativas lá em cima. Não me desiludi.
O filme é incrivelmente fiel à obra e as poucas alterações que existem tornam a história mais interessante. Tenho um pequeno problema com a relação Knox e Chris, mas isso é assunto para outro dia.
A amizade entre as personagens é explorada de uma forma cativante e bonita - é uma história de amor no seu estado mais puro (que atire a primeira pedra quem nunca quis começar um clube de poesia com o seu grupo de amigos).
«B O N J O U R T R I S T E S S E», por Françoise Sagan: Bonjour tristesse é sobre ser uma rapariga adolescente e creio que Françoise Sagan não poderia ter representado melhor a confusão, culpa e autodescobrimento que chegam com a adolescência.
Em nenhum momento, nenhum capítulo, nenhuma linha é uma história feliz (o nome fala por si), porque Cécile vive num limite entre a monotonia, o medo, a vingança e a tristeza. Quando vê a sua liberdade ameaçada, o susto toma conta de si e a jovem entra em modo sobrevivência.
A partir desse momento, observamos a maneira como ela balança e processa os seus sentimentos de raiva, impotência, desejo, trauma, etc... enquanto conduz a história até o desfecho que ela não tem a certeza querer.
É um livro extremamente visual - consegui estar presente em todos os ambientes que Sagan descreveu - e suave, mesmo com a seriedade das peripécias.
«C Â N D I D O», por Voltaire: Voltaire tinha um sentido de humor que hoje lhe resultaria num especial da Netflix. Cândido é um homem tão inocente e positivo que chega a ser apenas estúpido. A sua maneira de ser faz com que enfrente diversas situações caricatas ao longo do globo e reuna um grupo de amigos improvável.
Em nenhum momento, nenhum capítulo, nenhuma linha é uma história feliz (o nome fala por si), porque Cécile vive num limite entre a monotonia, o medo, a vingança e a tristeza. Quando vê a sua liberdade ameaçada, o susto toma conta de si e a jovem entra em modo sobrevivência.
A partir desse momento, observamos a maneira como ela balança e processa os seus sentimentos de raiva, impotência, desejo, trauma, etc... enquanto conduz a história até o desfecho que ela não tem a certeza querer.
É um livro extremamente visual - consegui estar presente em todos os ambientes que Sagan descreveu - e suave, mesmo com a seriedade das peripécias.
«C Â N D I D O», por Voltaire: Voltaire tinha um sentido de humor que hoje lhe resultaria num especial da Netflix. Cândido é um homem tão inocente e positivo que chega a ser apenas estúpido. A sua maneira de ser faz com que enfrente diversas situações caricatas ao longo do globo e reuna um grupo de amigos improvável.
«O E S T R A N G E I R O», por Albert Camus: Pausa para refletir sobre a melhor maneira de começar um livro DE SEMPRE - em especial porque sinto que as primeiras palavras são as mais importantes no que toca à minha relação com qualquer obra.
Não adorei «O Estrangeiro», mas em contrapartida adorei Camus e não consigo explicar como me terei apaixonado por um autor, achando que o seu livro não é nada que se aproxime da marca do extraordinário. A personagem principal é incrivelmente maçadora - não é feliz, nem infeliz; não está presente, nem ausente - é um figurante da sua própria vida, que não sabe como justificar as suas ações e não tem sequer a necessidade de processar sentimentos e emoções (porque não os possui).
No entanto, tudo o que acontece à sua volta e devido à sua passividade transforma «O Estrangeiro» numa narrativa fluída, inteligente e detentora do caráter carismático que falta na figura central. Se o antiherói de Camus pecou por não ser quente, nem frio - as suas palavras marcaram por ter toneladas de intensidade e personalidade.
Sobre esta história, Albert Camus disse «"Em nossa sociedade, qualquer homem que não chore no funeral de sua mãe corre o risco de ser condenado à morte." Só quis dizer que o herói do meu livro é condenado porque não joga o jogo.» e não podia adorar mais este resumo.
Não adorei «O Estrangeiro», mas em contrapartida adorei Camus e não consigo explicar como me terei apaixonado por um autor, achando que o seu livro não é nada que se aproxime da marca do extraordinário. A personagem principal é incrivelmente maçadora - não é feliz, nem infeliz; não está presente, nem ausente - é um figurante da sua própria vida, que não sabe como justificar as suas ações e não tem sequer a necessidade de processar sentimentos e emoções (porque não os possui).
No entanto, tudo o que acontece à sua volta e devido à sua passividade transforma «O Estrangeiro» numa narrativa fluída, inteligente e detentora do caráter carismático que falta na figura central. Se o antiherói de Camus pecou por não ser quente, nem frio - as suas palavras marcaram por ter toneladas de intensidade e personalidade.
Sobre esta história, Albert Camus disse «"Em nossa sociedade, qualquer homem que não chore no funeral de sua mãe corre o risco de ser condenado à morte." Só quis dizer que o herói do meu livro é condenado porque não joga o jogo.» e não podia adorar mais este resumo.













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