As Ondas - Virginia Woolf
15:49:00Há anos que queria ler Virginia Woolf e deixava sempre para depois - tenho dentro da mala uma versão de bolso de Mrs Dalloway, que descobri numa feira de livros em 2ª mão e até hoje nunca abri, acabando por culpar o universo, esse monstro que nunca cria as condições propícias para a leitura. Encontrei-me com As Ondas primeiro, pois deparei-me com o Heróides - Clube do Livro Feminista e Virginia acenou-me desde o mês de fevereiro, com uma cópia daquela que é considerada a sua obra mais experimental.
Enquanto leitora, tenho o hábito irritante de procurar por mim em todas as histórias. Enquanto livro, As Ondas insiste que todos os seus personagens sejam um espelho. Dando a conhecer, através de monólogos, seis indíviduos | amigos | personalidades, gosto de pensar que é uma espécie de equivalente literário à experiência que fica depois de vermos Friends pela primeira vez - só que, como nos transporta até 1931, a realidade representada é (para nós) invulgar, e, como é Virginia Woolf, a vivência é mais poética e profunda. No entanto, se mergulharmos na narrativa com a intensidade que se pretende, o resultado é semelhante: criamos uma amizade íntima com meia dúzia de pessoas que alguém inventou.
E a verdade é que fechei a última página com a sensação de pertencer a alguma coisa maior que eu e com a certeza de ter encontrado um pouco daquilo que sou em Bernard, Jinny, Louis, Susan, Neville e Rhoda - os protagonistas.
O desenrolar d'As Ondas faz com que os acompanhemos durante toda a vida e possamos compreender quem são aqueles seres tão complexos e tri-dimensionais que vivem do outro lado. Bernard tem alma de poeta e é apaixonado por palavras, Jinny é uma mulher hedonista digna de um romance de Oscar Wilde, Louis passa demasiado tempo preocupado com a imagem que os outros têm de si, Susan só quer voltar para casa, Neville vive para estar apaixonado e Rhoda perde-se no mundo no espaço de um segundo - e todos eles sou eu; e eu sou todos eles.
É um romance dedicado à identidade e à individualidade - que existe mesmo quando estamos em grupo - e à harmonia e ao conflito que tornam as memórias dignas de serem relembradas. Não é sobre pessoas perfeitas, amores perfeitos, amizades perfeitas e, por esse motivo, é muito violento ao mesmo tempo que é extremamente suave. Nunca me deixou impávida, serena e distante - impactou-me e, enquanto arte, creio que tenha cumprido o seu propósito por esse motivo.
Nunca pensei que fosse com este livro que ficasse a conhecer uma das maiores autoras de sempre, mas ainda bem que foi - uma primeira impressão tão desconcertante como esta não poderia despontar outra reação em mim que não a curiosidade em ler mais sobre as criações de Virginia Woolf. À Cassandra, ao Heróides, à Sara Barros Leitão e à Sara Carinhas um enorme agradecimento - pelo projeto, pela escolha do livro e pela reunião inacreditável. Pela criação de uma iniciativa que, a um sábado de manhã, juntou toda uma comunidade em redor de uma obra genial.


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