Excerto do Diário de Uma Jovem-Adulta em Negação
19:54:00Sinto que passei toda a minha vida à espera deste preciso momento – desta exata década da minha vida -, e dou por mim a compreender e examinar todos os pormenores agridoces que tornam o lento processo de ficar adulta em algo menos glamoroso que aquilo que eu esperava.
Fui criada com um ecrã de cinema diante dos olhos e, talvez por isso, não contasse com o cumprimento diário e constante de um leve sentimento de solidão, que chega através do pequeno pensamento intrusivo que vive no fundo da minha mente e me alerta para a distância que há entre mim e todos os lugares onde estão as pessoas que eu devia/ queria ter perto e os momentos que podia estar a viver, mas só vejo através de vídeos de quinze segundos no Instagram.
Provavelmente esta sensação de quem está perdido é partilhada por toda a gente nos 20s, que não sabe muito bem sobre o que é a vida e ainda tenta descobrir como construir um bom futuro com as ferramentas que tem. E provavelmente é comum estar sozinho na cozinha de madrugada, com uma panela de massa a cozer no fogão e uma melodia melancólica a tocar como barulho de fundo.
Mas, não querendo ser mal interpretada, tenho aprendido bastante sobre mim nestes estranhos anos de transição. E há factos, antes desconhecidos, interessantes a partilhar:
1. O meu crescimento não é exponencial e, a cada passo em frente, vem uma curva que me obriga a reaprender lições de vida que ficaram coladas com fita-cola barata;
2. Há duas opções na vida: engolir as lágrimas; ou lidar com a tristeza, chorando de cara feia. Os momentos cinzentos fazem parte da vida e têm tanto a ensinar como as alturas de céu azul;
3. É um privilégio sentir saudades de dimensões monstruosas – é um privilégio ter alguém(ns) que nos faça sentir saudades.
É uma montanha-russa confusa e complexa, onde o tempo parece ser escasso e, simultaneamente, demasiado. Onde todas as certezas e planos que pareciam inscritos em pedra, foram apagados e modificados como se fossem giz em alcatrão e eu não sei nada, sobre coisa alguma.
São 19:23 e tenho o meu computador ligado à televisão, com um cabo velho que faz a imagem parecer uma cassete VHS, enquanto um episódio de Mentes Criminosas chega ao final. Uma das minhas melhores-amigas enviou-me mensagem porque encontrou o meu livro preferido em promoção numa loja e o ramo de flores cor-de-rosa que me ofereceram no meu aniversário deixa a sala-de-estar milhares de vezes mais bonita.
Não me lembro da última vez que não senti uma única pontada de medo, ou insegurança, mas estou feliz porque setembro vai começar e é o melhor mês do ano. Escrevi um texto inteiro que não diz absolutamente nada, a condizer com as ideias baralhadas que me vivem no cérebro.
Os vintes.


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