Nomadland, 2021
22:55:00(Escrito para a cadeira de Média e Crítica Cultural - Mestrado em Média e Sociedade)
Após um ano atípico, cujos efeitos se fizeram sentir também no universo do cinema, “Nomadland – Sobreviver na América” foi a produção premiada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, com o Óscar de Melhor Filme. Escrito e realizado por Chloé Zhao – também ela vencedora do galhardete de melhor direção -, a história é inspirada no livro “Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century”, por Jessica Bruder, uma obra que reflete à cerca dos efeitos da Grande Recessão Americana (2007-2009).
Inserido numa lista de longas-metragens que abordam injustiças sociais e dão voz a minorias, “Nomadland” explora os efeitos do capitalismo americano da perspetiva de Fern (Frances McDormand), antiga residente em Empire, que se vê forçada a embarcar num estilo de vida nómada, após o colapso económico da sua região. Revolucionando a indústria cinematográfica através de vários detalhes e pormenores, tais como a audácia de criticar um sistema político atualmente bastante polarizado e em conflito; e a presença de apenas um número reduzido de atores profissionais, visto a maior parte do elenco ser composto por indivíduos que representam as suas próprias realidades, enquanto nómadas nos Estados Unidos da América.
Lançado nos Festivais de Cinema de Veneza e Toronto, arrecadou um total de 9 milhões de dólares em bilheteira e as posições dos críticos foram consensuais, atribuíndo ao filme uma avaliação média de 8.8/10.
A nível de narrativa, “Nomadland” não esconde que a solidão partilha o papel principal com Fern. Cada segundo tem em si uma quantidade imensa de emoção, intenção, empatia e melâncolia e é necessário criar e nutrir um sentimento de compaixão pela protagonista, ao longo da ação, para compreender as suas decisões e posições – porque, no fundo, “Nomadland – Sobreviver na América” é um filme sobre ser-se humano.
As posições políticas viajam muito perto da carrinha de Fern, sem nunca se apresentarem, deixando ao espetador tirar as suas próprias conclusões, com base nos testemunhos que vai percepcionando no decorrer da história. A nível estético, a fotografia do filme apresenta toda uma nova dimensão à narrativa, contando-nos os segredos que os personagens tentam esconder a sete chaves, sendo impossível absorver “Nomadland” sem prestar atenção à composição, paleta de cores, expressões faciais e organização do ecrã.
A atuação brilhante de Frances McDormand não só lhe concedeu o título de Melhor Atriz, como nos presenteou a todos com uma personagem autêntica, intensa e complexa. A essência do filme está nela e na sua brilhante performance.
Indiscutivelmente, uma produção necessária e de qualidade inquestionável. Pelo estoicismo, pela realidade, pela necessidade de movimento constante como forma de sobrevivência. Uma obra de arte no seu estado mais puro.



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