rachel green, temporada 1
23:52:0022:54
Já passei seis anos a olhar para esta caixa de texto em branco e a digitar caracteres à toa, pela simples sensação de estar a fazer aquilo que melhor sei e mais gosto - escrever. Tinha 16 anos, não estava particularmente interessada em quem pudesse estar a ler do outro lado e as estatísticas minúsculas dos primeiros anos não me deitaram abaixo, porque cada entrada de blog era realmente de mim para mim - lembro-me de me sentir menos articulada e inteligente quando passava muito tempo sem despejar meia dúzia de parágrafos para este canto escondido da internet. Assim, de algo que eu adorava fazer, passou a ser algo que me fazia falta, uma espécie de exercício mental onde me treinava a mim própria para esse emprego em part-time enquanto storyteller. que me atribuí a mim própria.
Está realmente tudo aqui: o meu ano de finalista do secundário em que ouvi compulsivamente o «Divide» do Ed Sheeran e escrevi uma review manhosa - sem as skills de crítica musical que 5 anos mais tarde marcaram uma unidade curricular do meu primeiro ano de mestrado -; o verão em que tinha pesadelo diários sobre a candidatura à universidade e sobrevivi ignorando o mundo real e projetando o meu futuro em comédias românticas da década de 2000; o momento em que recebi o certificado de licenciatura em casa e não queria acreditar que era finalmente uma adulta a sério.
Estão aqui as personagens de filmes a quem roubei traços de personalidade, todas as pessoas que conheci (e adorei e odiei) marcadas nas suas expressões e momentos marcantes, as playlists que fiz depois de me apaixonar a primeira vez... e a segunda - e as suas sucessoras que cuidaram de mim após corações partidos -, os livros que me mudaram a maneira de analisar a vida, o amor e a amizade e infinitas peças de mim que se unem numa mistura daquilo que fui e sou.
Não me sinto muito diferente da adolescente ingénua que escrevia sem filtros e publicava textos antes de os rever, com muita pressa de os lançar para o mundo, mesmo que com erros ortográficos e palavras misturadas. Continuo a precisar de uma caixa de texto em branco da mesma maneira que preciso de oxigénio - porque no fundo não consigo perceber o que sinto até ler aquilo que disse. No entanto, pela primeira vez: não faço ideia do que vem a seguir. E já tentei procurar refúgio no cinema, na música, nos trezentos hobbies que experimento por semana e nos e-mails com currículos e cartas de apresentação que enchem a memória da minha caixa de saída e permanecem sem resposta na sua maioria (podem, por favor, parar de me ignorar?); só que tudo o que tenho é uma versão minha na primeira temporada de uma sitcom, em que a cena de entrada consiste num zoom in de mim sentada no chão da sala, de caneta na mão, a tratar um velho caderno preto, comprado há 2 anos numa papelaria do Porto, como meu terapeuta. No canto, está um computador ligado e uma caixa de texto em branco à espera de ser preenchida.
23:35
Não se deixem enganar - estou profundamente aterrorizada. Talvez por não ser uma adulta há tempo suficiente para conseguir tranquilizar-me com a inevitabilidade do destino... Não consigo prever o que se vai passar nos próximos vinte e dois episódios, contudo, como dizia uma filósofa chamada Hannah Montana, «a vida é uma escalada, mas a vista é linda».
Então, dêem as mãos, ponham Taylor Swift a tocar, acendam uma vela perfumada e peçam que os vossos altos e baixos sejam dignos de um filme da Anne Hathaway (eu estou a fazer figas para que o meu seja O Diabo Veste Prada).


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