«The Secret History», por Donna Tartt

22:27:00


Existe, durante a vida, um número seletivo de livros com o poder de alterar para sempre a nossa visão do mundo - como se tivessem sido escritos especialmente para nós e encontrado maneira de viajar até às nossas estantes, ou mesas de cabeceira, transformando-se nos nossos melhores amigos. Se acredito em qualquer tipo de magia, é nessa.

A História Secreta é um desses tesouros escondidos, que explicam e definem uma pequena parte de mim. E eu já desconfiava que se iria tornar no meu número 1 antes de o ler - quando tinha a sinopse decorada na ponta da língua e o alerta de promoções ativo no motor de busca - e antes de encontrar uma pequena cópia de bolso escondida na biblioteca da faculdade

Escrita em inglês e requisitada pela última vez em 1994, segundo a folha amarela amassada entre a segunda e terceira página, foi a minha companhia fiel durante a semana que demorei a percorrer a narrativa de Donna Tartt, desejando sempre que fosse possível entrar para dentro da história e viver lá, enquanto um novo personagem.

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Richard Papen, Henry Winter, Charles Macaulay, Camilla Macaulay, Frances Abernathy e Bunny Corcoran são a turma de Estudos Clássicos de uma universidade na costa este dos Estados Unidos e um grupo de amigos peculiar que conhecemos em circunstâncias infelizes, após Bunny ter sido a vítima de um homicídio... 

...cometido pelos restantes cinco. 

Porquê? Que segredos escondem os protagonistas? Qual a dinâmica destas relações que criam entre si? 
Pode uma história de mistério ser construída com sucesso, quando revelamos o crime no primeiro parágrafo?

Humildemente, e depois de ter admitido que A História Secreta se transformou na obra da minha vida, afirmo que todo o êxito pode ser alcançado, mesmo quando damos spoiler da nossa própria narrativa na primeira página. Eu corri atrás dos motivos, atrás do contexto, atrás das explicações, como se elas fossem oxigénio e eu precisasse de saber para continuar a viver. E, a melhor parte de tudo, quando consegui todas as respostas servidas numa bandeja de prata, elas não me desiludiram.

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No entanto, não só de mistério é feito o melhor livro de todos os tempos - a estética é uma grande fator na construção do espaço e dos acontecimentos. Ao estilo de Oscar Wilde, Donna Tartt criou meticulosamente um ambiente que nos permitiu conhecer intimamente o grupo sob o qual brilha o holofote, como se estivessemos ao seu lado, a cada vírgula impressa no papel. A universidade privada, a classe dos cinco alunos, os seus estilos de vida – há sempre uma chaleira de porcelana, um livro aberto, um cigarro e uma garrafa de whiskey a marcar posição em cada sala. Não é possível explicar o encanto que está presente durante toda a ação sem mencionar o fator dark academia que a elevou a um estatuto de clássico da literatura. Essa atmosfera e esse atributo visual são o trunfo principal da história e partilham o palco com os personagens.

Por outro lado, também a dinâmica de grupo faz valer a conquista do leitor - no meu caso específico, sei que foi a variável determinante. Geralmente, adoro ver um conjunto de amigos navegar a vida, construindo uma família disfuncional e inesperada e, neste livro, entrei nessa espiral ao mesmo tempo que o narrador. Ele sente-se fascinado pela turma de Estudos Clássicos, devido à sua união, aparência e complexidade. E absorvi todo o fascínio através dele.

A pior parte e ao mesmo tempo a melhor? Não é possível a ninguém jurar sobre nada do que aconteceu, nem avaliar o caráter de nenhum dos elementos da história, porque o narrador - Richard - conta as peripécias na primeira pessoa e é extremamente emocional nas suas memórias. No entanto, se isso faz surgir uma neblina à volta do livro, também lhe dá o encanto e mística que tão bem o caracterizam.

Henry () – o meu personagem favorito – é a maior prova da instabilidade do narrador. Ele é o líder do grupo, o Thomas Shelby da narrativa. Com tudo planeado, todas as jogadas consideradas e a confiança total (e/ou medo) dos restantes Henry torna-se no ídolo de Richard num piscar de olhos – compreensivelmente, tendo em conta o magnetismo da sua personalidade. 

Todavia, quando Richard está em desequilíbrio, revela a sua volatilidade e os seus testemunhos à cerca de Henry tornam-se perversos e traiçoeiros, para mais tarde regressarem a um estado de veneração – e, quando o narrador não sabe o que pensar, tudo começa a tremer em nosso redor. O que é real? No que podemos confiar?

Chorei no decorrer do livro, ri (bastante) com a familiaridade e naturalidade dos diálogos, sonhei com ele praticamente todas as noites desde que o requisitei. Não estou chocada… afinal, eu sabia que era o meu livro favorito. Só não o tinha lido ainda.

Obrigada, Donna Tartt


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