azul mar, vermelho rosa (conto)
21:04:00
Era uma vez um
príncipe. E um palácio. E um vestido. Era uma vez uma história incompleta
escrita num velho caderno, guardada numa gaveta secreta, impaciente pelo
momento do “felizes para sempre”. Era uma vez o barulho de corrida sobre a
calçada. Um conto de fadas moderno, onde a chuva manchava o cenário outrora
perfeito, como indício de algo errado num enredo construído por dois corações
perdidos.
Ela não sabia
onde ia, mas tinha pressa. Logo ela, que, como rapariga portuguesa de mil
novecentos e sessenta e oito, tinha sido ensinada a esperar acima de todas as
outras coisas. A esperar que a vida lhe passe diante dos olhos, esperar que
decidam o seu próximo passo por si, ser uma personagem secundária numa
existência que lhe devia pertencer por completo. Por isso, não chorava. Os
olhos não eram seus. Apenas o coração lhe obedecia, apenas ele tinha coragem de
se opor a ordens superiores a si mesmo. Lutou tanto, o pobrezinho, que se
partiu. Lutou tanto que, pela primeira vez na vida, ela desejou nunca o ter
escutado.
Cada gota
caída na sua pele trazia de volta uma memória. Uma lembrança dolorosa do que
podia ter sido e nunca foi. Uma recordação da cor azul, que tingia o olhar mais
bonito que alguma vez observara. Fora em tons turquesa que descobrira que todos
os poetas mentiram, quando disseram que o amor aparecia na forma de pequenas
borboletas no estômago. Quando entrara no pequeno café e o vira pela primeira
vez, a selva inteira despertara dentro de si. Um sorriso terno adornava agora
essa recordação e a chuva de inverno deixou de a incomodar tanto.
- Bom dia, menina! Vai querer alguma coisa?
– perguntou a senhora de longos cabelos brancos atrás do balcão, assustando-a e
trazendo-a de volta à realidade. Receava que o seu batimento cardíaco
inconstante e quase audível a denunciasse. O que estava mesmo ali a fazer?
Tentava procurar a informação na sua mente, enquanto evitava olhar novamente na
direção da mesa do fundo, mas a confusão tomava conta de si e, pelo calor que
sentia, tinha a certeza estar com as faces ainda mais rosadas que o habitual.
Abriu a boca, esperando que uma resposta se
formulasse rapidamente, mas foi interrompida por um grito inesperado, oriundo
do canto proibido da sala. Deixou os seus instintos tomarem conta de si e
voltou-se, de modo a ser capaz de observar a cena que se desenrolava atrás de
si, cruzando-se de novo com o mesmo par de olhos azuis, causadores da sua perda
de controlo há instantes atrás. Só que, desta vez, eles olhavam de volta. E ela
sorriu, sem dar por isso.
Caminhava,
agora sozinha. Por cada montra, cada porta e cada janela, deixava olhares
curiosos e julgamentos pairarem sobre si. No entanto, já não se importava.
Todas as lições de comportamento e etiqueta sobre como devia agir e o que devia
deixar transparecer pareciam-lhe injustas e faziam nascer nela uma revolta
inigualável. Já tinha perdido tudo, precisava de se recuperar. De preencher o
enorme vazio que teimava arder com mais força a cada segundo que se deixava
permanecer no seu habitual estado de passividade.
A cidade que
julgava conhecer como a palma da sua mão revelou-se um mistério de ruas
estreitas e inclinadas que não tinha permissão para percorrer. Virava à
esquerda, optava pela direita, dava ao destino a oportunidade de a guiar,
talvez ele conhecesse o lugar certo para acalmar o desgosto interno que a corroía
lentamente e que ela não conseguia exteriorizar.
Ajeitou a saia e fechou, por fim, o livro.
Era costume passar os intervalos a ler, alheia às conversas triviais que se
desenrolavam ao seu redor. Procurou pelas suas amigas, encontrando o grupo num
instante graças à vibrante camisola vermelha que a sua colega de carteira
vestia. Lentamente, levantou-se do pequeno banco de madeira antiga e procurou
pela sala onde, dentro de cinco minutos, iria ter uma aula de Língua
Portuguesa.
O liceu não era nem muito grande, nem muito
pequeno. Na verdade, era difícil para ela determinar o verdadeiro tamanho do
edifício, quando só podia percorrer metade – a ala feminina. Uma grande parede
branca dividia o pátio e impedia raparigas e rapazes de se encontrarem durante
o período escolar, a sua mãe dizia que era melhor assim, que no dia em que
deixasse de existir essa barreira ninguém se iria concentrar o suficiente nos
estudos. Não sabia se era verdade, mas um mundo sem separações parecia-lhe um
sonho, daqueles estranhos e desordenados, ia contra tudo aquilo que sido
ensinada a defender e, por essa razão, respeitava aquele longo muro sem sequer
questionar as suas imposições.
Um movimento brusco junto ao portão
principal chamou a sua atenção, fazendo-a esquecer-se automaticamente do seu
roteiro prévio e aproximar-se do grande pinheiro que decorava a entrada do
liceu. Uma camisa branca, que não estava engomada da maneira apropriada, e um
casaco azul-escuro enfeitavam uma figura que, adivinhando pela estatura, não
deveria estar naquela facção do
prédio – Precisa de ajuda? – questionou, quase num sussurro. Se alguém a visse,
estaria metida em grandes sarilhos, mas a sua curiosidade falava tão alto que
era impossível escutar a voz da sua consciência.
Sentiu um suspiro ficar preso na garganta,
quando o desconhecido lhe sorriu. Reconhecia o seu olhar. Não pensava noutra
coisa fazia semanas, tentava arranjar explicações científicas para a maneira
como havia reagido durante o primeiro e curto encontro que ambos partilharam e,
no entanto, lá estava ela, novamente paralisada e sem saber o que fazer.
- Finalmente, encontrei-te! – exclamou o rapaz,
fazendo-a esboçar uma expressão de pura surpresa. Ele estava à sua procura?
Nunca tinha
sido encorajada a sonhar, a pensar mais alto, a destacar-se. O seu futuro já
estava desenhado ainda nem tinha nascido e a sua única missão era seguir a
linha condutora que a guiaria até ao destino perfeito e pré aprovado pela sua
família. Isso tornou o rapaz no pesadelo de roupa amarrotada e sorriso rebelde
dos seus pais. De repente, ela estava acordada, queria compreender o mundo ao
seu redor, tinha encontrado um sentido de ambição que não sabia possuir.
Sonhavam juntos, construíam fortalezas seguras, que rapidamente se tornaram no
único lugar onde podiam ser livres.
Queria mais,
queria tudo e só o queria ele. Deu por si sentada no meio da calçada a
contemplar como nada lhe restava, tentava arranjar forças, dizia para os seus
botões que ainda havia uma luta para ganhar, mas todos os planos tinham
desaparecido no segundo em que ficara sozinha. Sem o seu melhor amigo, sem o
seu amor.
- Eles não gostam nada de mim, pois não? –
perguntou, tentando esconder uma risada. Ela sabia que ele não se importava com
a aprovação da sua família. Tinha a noção do terramoto que trouxera àquela
casa, do choque de realidades que os forçara a enfrentar, mas desde que ela
estivesse feliz ao seu lado, nada o afligia – Aposto que só não te proíbem te
estares comigo, porque pensam que é só uma fase.
Riu alto. Não era suposto estar na rua
durante a noite, especialmente acompanhada por alguém do sexo oposto, mas a
descoberta que a varanda do seu quarto era extremamente fácil de trepar
facilitava a tarefa de quebrar as regras. – Não é que não gostem de ti, mas
acho que preferiam alguém que não me fizesse pisar o risco tantas vezes.
- Ei! Eu não te obriguei a vires até aqui!
- Claro que não, só estavas a atirar pedras
à minha janela como passatempo! – retorquiu, fazendo com que os braços do
moreno se abrissem e a aconchegassem num abraço. Mal podia esperar pelo dia em
que não fosse preciso desafiar ninguém só para ser assim tão feliz. Lembrava-se
da altura em que o mundo lhe parecia simples, em que estava satisfeita em agir
de acordo com o guião que tinham escrito especialmente para ela, recordava-se
de não sentir a necessidade de provar o quão longe poderia chegar, se a
deixassem tentar. Ele tinha despertado em sim uma vontade enorme de deixar uma
marca, alcançar o impossível e decidir um dia de cada vez e ela adorava o quão
livre se sentia quando era tratada de igual para igual.
Desde cedo, percebeu
que havia muitas coisas que as pessoas não diziam, por não estarem autorizadas
a fazê-lo. Não reconheciam estar trancadas dentro de um sistema que consumia
tudo aquilo que os tornava humanos, não lutavam por uma oportunidade de
expressão, ignoravam as súplicas da sua alma, porque ela estava proibida por
lei de interferir em assuntos do mundo real. No início, não a incomodava, os
problemas dos outros, aos outros diziam respeito, mas, no meio de tanta volta e
reviravolta, tinham sido ambos apanhados no meio de uma confusão demasiado
grande para ser resolvida por duas pessoas que tinham como único passatempo
remar contra a corrente.
Queria gritar,
que toda a gente soubesse quem eram os verdadeiros culpados pela sua dor. Se o
fizesse, eles certamente ouvi-la-iam, afinal estavam em todo o lado, prontos
para castigar quem quer que perturbasse a paz imaginária que reinava naquele
país quebrado e disfuncional. Tinha muito medo, mas a sua mágoa era superior em
níveis que nem conseguia compreender. Não sabia qual o próximo passo, parecia-lhe
ter atingido um beco sem saída, sem fazer ideia como resolver aquele
quebra-cabeças, não conseguia voltar para a pessoa que era e não tinha
confiança na sua capacidade de seguir em frente.
As suas mãos tremiam com as palavras que
tinha acabado de ler, apesar de reconhecer por entre as linhas a confiança
característica que ele exibia em todos os momentos. “Fui escolhido para ir para
Angola. Prometo que volto o mais depressa que conseguir”.
Percorria o quarto de maneira inquieta, sem
conseguir encontrar a luz na situação, por mais voltas que desse à sua mente.
Ele ia embora. Lutar num conflito despropositado, arriscar a sua vida por um
bocado de chão que devia pertencer aos seus donos por direito, sem poder
garantir que tudo ficaria bem, que, quando o dia chegasse ao fim, ainda estaria
lá para lhe sorrir.
Reconheceu a
pequena porta castanha, adornada com dois grandes vasos de flores, agora
murchas. Olhou-a durante mais tempo que aquele que seria necessário, ponderando
se deveria bater, sendo interrompida pelo som de uma maçaneta a girar. Sentiu
os seus joelhos falhar, quando um abraço desesperado a embalou. Murmurou um
breve cumprimento, ignorando a enorme dor de cabeça que só percebeu sentir quando
disse a primeira palavra em dois dias e seguiu a dona da casa até ao grande
sofá florido que ocupava metade da sala de estar.
Olhou-a,
notando pequenas lágrimas escorrerem-lhe pela face. – É difícil de acreditar,
não é? - acenou lentamente, baixando a cabeça e apoiando-a nas mãos. Não era
fácil chegar à conclusão que ela não era a única a quem tinham tirado o chão,
mas ali sentia-se mais consolada e protegida que em qualquer outro lugar. Os
seus olhos permaneciam fechados, mas sentia um cobertor ser pousado sobre os
seus ombros. – Onde estiveste? Estás encharcada.
- Não faço
ideia… - admitiu. Não se lembrava do que tinha feito nas últimas horas, não
conseguia organizar todos os pensamentos que dançavam dentro de si, deixando
tudo cada vez mais confuso. Recebeu da mulher à sua frente um pequeno esboço de
um sorriso e reparou como os seus olhos eram exactamente iguais àqueles que
tinha perdido para sempre.
Ali estava.
Depois de ter lido e relido todas as cartas e ter deixado uma última rosa
vermelha ao protagonista do seu conto de fadas. Ali estava. Com a certeza que o
mundo onde vivia não tinha sido feito para finais felizes.


3 comentários
Porque é que eu me pus a ler este conto a estas horas da noite, agora vou dormir com heartbreak :(. Este conto está mesmo muito bom, é um retrato do amor há cerca de 50 anos atrás, quando os guiões da sociedade separavam tantas jovens.... O mundo antigamente raramente permitia finais felizes.
ResponderEliminarBeijinhos
Blog: Life of Cherry
Muito obrigada, Cherry ❤️
EliminarDesculpa a heartbreak ;)
Muito obrigada, Inês! Fico muito feliz por te ter dado uma pequena ajuda!
ResponderEliminarBeijinho