Junho de 2022 e a vida é confusa

23:31:00

 

Tenho 22 anos e não faço ideia de quem sou. O que tem a sua ironia, porque aos 17 tinha as respostas todas e sabia exatamente como o futuro ia acontecer - e depois mudei de ideias. E mudei outra vez. E mudei outra vez. E mudei tantas vezes que já nem consigo ver com clareza o ponto de partida de todas estas mudanças. 

Se há cinco anos desperdiçava o dia a sublinhar manuais de História A, a escrever frases soltas em cadernos velhos e a desejar saber como fazer um eyeliner perfeito; passei os últimos dois anos (!) a enviar currículos - sem a expetativa de obter resposta em 90% dos casos -, a decidir o tema da tese que marcará o final da minha vida académica e a tentar perceber como é que os outros adultos conseguem navegar na vida tão melhor que eu. Em compensação, já dominei a questão do eyeliner.

Continuo a escrever frases soltas em folhas de papel dobradas e, quando encontro um livro de época, é-me difícil resistir ao impulso de decorar as datas e os nomes dos envolvidos. Continuo a perder horas na biblioteca, porque é uma questão de vida ou morte trazer o livro certo para casa, e sei que o lugar onde sou mais feliz é na sala escura do cinema. Continuo a adorar andar debaixo da chuva, apesar de não ser medicamente aconselhável e continuo agarrada ao sonho que, um dia, eventualmente, serei capaz de viver unicamente da escrita (ainda que odeie todas as frases que saem do meu cérebro).


Mas a vida tem sido estranha e solitária, nos intervalos em que não é agitada e cheia de multidões. Muitas vezes é as quatro ao mesmo tempo e eu estou ali - no meio de uma música, sentada na sala de estar da minha melhor amiga, no final de um capítulo de um romance e no caminho que separa a minha casa do meu jardim favorito. A lidar com problemas de gente crescida, como a gestão mensal de um orçamento que me permita sobreviver, entrelaçados com as dúvidas existenciais que já me são familiares e continuam sem resposta - devo mandar mensagem primeiro ou isso é sinónimo de morte social?

Tudo isto para me desculpar por não escrever (aqui), quando a verdade é que não faço outra coisa. Em relatórios, reportagens, cartas de apresentação, tweets - é preciso desanuviar nalgum lado -, testamentos de 1km enviados à Erika às duas da manhã, e-mails, e parvoíces rabiscadas num caderno velho que me acompanha desde o tempo em que tudo era uma certeza. Nos tempos mortos e nos tempos vivos prometo tentar perceber como funciona esta coisa de ser adulta e publicar mais entradas de blog com cabeça, tronco e membros. 


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