My Year Of Rest And Relaxation, por Ottessa Moshfegh

23:08:00

«My Year Of Rest and Relaxation» está na minha lista há dois anos, dos quais vinte e três meses passei a fugir dele, porque, tendo em conta a sinopse, me parecia impossível ser interessante. Resumidamente, a narrativa centra-se numa jovem-adulta (cujo nome não é revelado) que, por se sentir desiludida com a vida, decide hibernar - quem nunca?

E eu, julgando que um livro onde a protagonista dorme o tempo todo é o equivalente a tortura literária, preferi sempre optar por passá-lo à frente e abrir as páginas de outra obra, onde as personagens estivessem acordadas e a fazer *cenas*. Fevereiro de 2022 marcou o fim da minha greve e, mal terminei o primeiro capítulo, soube que estava enganada em relação ao conceito: é verdade que não há muita ação, mas Ottessa Moshfegh conseguiu pegar nessa inércia e fazer-me sentir curiosidade, compaixão e necessidade de conclusão. O resultado? Não consegui largar «My Year Of Rest and Relaxation» até chegar ao último ponto final.



É uma narrativa à medida de uma música da Fiona Apple, ou da Lana del Rey - com aquele sentimento muito forte de quem saiu do Tumblr em 2014 (quem sabe, sabe) -, triste e suave ao mesmo tempo, como uma música de embalar que transporta a protagonista para o sono de um ano a que se propôs, sendo que um dos pontos mais importantes (para mim) se trata da representatividade que o livro conseguiu atingir: os relatos da vida de uma mulher mentalmente doente, feitos por uma mulher. O que significa que quando falamos de sofrimento, ou raiva não o fazemos de uma forma estética e romantizada - «My Year Of Rest and Relaxation» é cru, sincero e não tem medo das palavras.

A narradora tem uma índole questionável e é muito fácil não gostar dela: não é boa amiga e fica a questão se seria sequer boa pessoa. Ainda assim, sinto que escolhi a opção escondida de compreender - ou, pelo menos, tentar - os motivos que a levam a ser, à falta de palavra melhor, uma besta. A sua insensibilidade, o seu calculismo e a sua facilidade em manipular todos os que a rodeiam, de modo a obter exatamente aquilo que satisfará os seus caprichos, estão marcados em praticamente todas as frases, mas não são injustificados e a linha condutora que a levou até a esse ponto instável é muito clara. Ela não está bem, o que levanta a questão - até que ponto podemos julgar alguém pelas suas atitudes, quando essa pessoa está a agir por instinto de sobrevivência?

Tornou-se num dos meus favoritos, ainda que reconheça que não é o copo de chá de toda a gente. É muito introspetivo - a maior parte do enredo acontece dentro do cérebro da narradora -, lento e presunçoso. Nenhuma dessas características me incomodou e no final ficou um sentimento de inquietação: todas as boas obras de arte deviam deixar-nos desconfortáveis, certo? Adorei a dimensão da históriaadorei a profundidade com que se explorou as relações amigáveis, amorosas e familiaresadorei irritar-me com todas as personagens em excepção, adorei ser surpreendida por um livro que tinha quase a certeza ser absurdo. Não é. Fez muito sentido.


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