eva luna - isabel allende
20:04:00E v a L u n a era um livro que estava na minha lista há muito tempo - anos, para ser honesta -, mas em Março ficámos trancados em casa e a minha maior fonte de literatura, a biblioteca, fechou. Dei por mim licenciada e, após terminar um estágio curricular de três meses, achei que seria uma decisão razoável pegar no meu cartão, colocar a minha máscara e aproveitar o tempo livre que finalmente possuía para me afogar nas palavras de Isabel Allende.
Como de costume, é-me sempre mais difícil passar pelo primeiro capítulo de uma obra e confesso que a abertura de Eva Luna não me conquistou particularmente - pelo menos, não a um nível que me fizesse esquecer o mundo exterior e viver dentro da narrativa. No entanto, após a apresentação dos pais da personagem principal, assisti por fim ao nascimento de Eva e fiquei completamente envolvida na sua vida - de um modo tão natural e inconsciente que comecei inclusive a preencher a minha playlist mensal com temas que me transportavam para o seu universo e a construir a sua banda sonora.
A Eva é uma Sherazade sul-americana do século XX, navegando num ambiente politicamente instável e repressivo, tentando sobreviver um dia de cada vez utilizando o seu talento para contar histórias como arma. A intranquilidade que pairava no seu país - nunca identificado - faz com que ela traga milhões de personalidades dentro de si e que, enquanto jovem, tenha uma experiência de vida incalculável.
Saltitando por entre páginas, a rapariga (e narradora) faz uma pausa na sua autobiografia para viajar até à Europa - onde está Rolf Carle, filho de um professor frio e desumano. No meio de voltas e reviravoltas, o livro acompanha os dois até o seu encontro final, o que nos proporciona a sensação de dois amigos pessoais que se conhecem por fim - duas realidades tornam-se, de repente, numa só.
Tendo sido escrito em 1987, é incrivelmente crítico a níveis atuais. Isabel Allende fala sobre o sexismo (e de que maneira este era perpetuado até pelos movimentos de guerrilha), introduz uma mulher transgénero (e sabe cuidar dela como deve ser) e discute o racismo sistémico sem errar por uma única vírgula.
Quando me propus a ler Eva Luna, esperava um romance épico, ou algo semelhante a um conto de fadas e, na verdade, recebi muito mais que isso. São parágrafos de realidade, com uma princesa moderna no centro do seu desenrolar. É um apelo ao amor, à tolerância e à revolução. É muito mais que um simples livro.


1 comentários
Sou muito fã de Isabel Allende, mas ainda não tive o prazer de ler o seu Eva Luna.
ResponderEliminarSe já o queria antes, depois de ler a tua opinião, fiquei ainda com mais vontade.
Beijinhos*
Não Digas Nada a Ninguém