acontece na mesma se não for publicado?
21:31:00
Criei uma conta no Facebook em 2010, dois anos depois aderi ao Twitter e, em 2014, foi a vez do Instagram. Toda a minha adolescência está, de um modo ou de outro, documentada em várias redes sociais, sendo perfeitamente possível analisar todos os pormenores que mudaram na minha maneira de ser, em que níveis cresci e como é que as minhas tentativas de expressão variaram, de acordo com a evolução dos meus gostos e crenças - e isso é assustador. Durante décadas, antes da internet ser uma variável comum no quotidiano da sociedade, os segredos que possuíamos dos 7 aos 20 eram guardados a sete chaves num diário cor-de-rosa, escondido numa caixa debaixo da cama, sob uma data de bugigangas cujo único propósito era camuflá-lo - se tivéssemos sorte ainda tínhamos direito a um cadeado de brincar que abria se fosse forçado por uma caneta. No entanto, fomos a primeira geração a partilhar a puberdade com um telemóvel, o que impossibilitou a existência de professores que nos explicassem como se devia utilizar aquela nova ferramenta que nos colocava em contacto permanente com o mundo, mesmo quando queríamos estar sozinhos.
Em sete anos, publiquei mais de quarenta mil tweets e, ainda que no secundário tenha impingido a mim própria a regra de nunca publicar indiretas de qualquer espécie, seja qual for a situação, ou a pessoa em questão, é bastante provável que, se descer o suficiente, consiga encontrar memórias de discussões que tive com amigas durante o nono ano - que agora nem me recordo -, desabafos de quando as coisas não corriam da melhor maneira, frases pirosas que retirava dos livros do Nicholas Sparks que na altura adorava e outras n coisas com as quais não me identifico hoje em dia. E eu não sei se isso é uma coisa positiva - ter essa percentagem gigante de todas as versões de mim que já fui tão violentamente exposta no mundo real e fazer parte dessa cultura viciada na aprovação externa e na prática do oversharing.
Decidi que queria ser jornalista aos dez anos. Ficava fascinada quando via comédias românticas como O Diabo Veste Prada, Como Perder Um Homem em Dez Dias, Louca Por Compras, etc..., onde as personagens principais eram mulheres inteligentes, com um guarda-roupa inacreditável e uma paixão pela escrita semelhante àquela que eu tinha (e tenho); e eu queria, mais do qualquer coisa, ser igual a elas. Durante um breve momento, cheguei a pensar que a nova versão dessas escritoras cultas, ambiciosas e independentes eram as influencers - raparigas que ganhavam a vida a fazer tudo aquilo que eu mais ou menos já fazia: cuidar das suas redes sociais com o maior profissionalismo que é possível atribuir a uma aplicação descarregada num smartphone. Não são. Não porque o trabalho que desempenham não é válido - discussão para outro dia -, mas porque não são independentes e são forçadas a residir no meio das plataformas que mais me assustam: as redes sociais. Esse encanto inicial que a nova profissão do século XXI provocou em mim foi rapidamente substituído por terror; primeiro, porque os comportamentos de "influencer" são contagiosos e tornaram as pessoas que não levam as suas páginas de instagram tão a sério e têm fotografias normais e banais numa espécie de lista de who not to follow ; e segundo, porque é incentivada uma atitude de partilha partilha partilha, como se a única maneira de comprovar um acontecimento seja a sua divulgação pública perante a sociedade, que nem uma lady debutante quando saía à rua pela primeira vez na Idade Medieval.
Repudio o excesso, olhar pela fechadura com a autorização do dono da casa faz-me imensa impressão, especialmente porque eu não quero, nem preciso de saber tudo à cerca de pessoas que não conheço. Resumidamente trata-se de uma busca infinita por aceitação e da necessidade cognitiva que temos de provocar inveja e ciúmes no nosso vizinho: ele tem de perceber que somos excelentes, que a nossa vida é perfeita e que provavelmente nunca vão ser iguais a nós. Honestamente, que grande treta, porque no fundo somos todos uma grande confusão e vai ser sempre assim, por mais bonito que esteja o nosso feed e por mais trabalho que nos dê a editar uma fotografia - com um preset que comprámos à Maria do Youtube, que faz negócio a vender fotografias com o nível de exposição a -5. A nossa vida é mesmo nossa? Onde está o controlo? Onde está a compaixão? Porque é que continuamos a fingir que estamos todos conectados, quando nunca estivemos mais longe uns dos outros?
Ainda que não tenha criado essa consciência a tempo de salvaguardar a minha adolescência, acredito que é necessário que se saiba que o significado dos momentos não está no número de indivíduos que sabem que eles aconteceram, prefiro guardar as memórias más e muito boas para mim - por ali no meio, está a margem daquilo que acho aceitável e inofensivo. É uma grande questão à cerca de liberdade, cultura e independência e de como não posso sacrificar nenhuma delas, porque fazem parte da mulher que sempre quis ser. E eu não quero que ninguém me conheça através de um ecrã, nem vou mais facilitar essa missão.


1 comentários
É assustador essa ideia de que se não tirarmos uma foto, então não aconteceu.
ResponderEliminarAcho que temos todos de poupar um pouco e deixar de querermos mostrar o que fazemos e com quem estamos. Até porque pode haver por aí um stalker creepy