Glória, 2021

18:51:00

G L Ó R I A   é a primeira produção portuguesa da Netflix - estreou dia 5 de Novembro na plataforma de streaming e é atualmente a dona do meu coração. Carreguei no botão de play sem ter as expetativas elevadas, devido a não conhecer o suficiente sobre a premissa - para além do facto desta ter lugar durante a ditadura do Estado Novo - e, cinco minutos depois, já estava rendida à cinematografia da série.

Entramos na história como cúmplices de João Vidal: filho de uma das figuras mais proeminentes do regime, consegue trabalho na RARET (Rádio Retransmissão) enquanto engenheiro, após voltar da guerra colonial e ser, em segredo, recrutado pelo KGB - serviços secretos da URSS. Instalado na Glória do Ribatejo, João desempenha o seu papel na Guerra Fria tentando combater os avanços dos Estados Unidos da América, bem como descobrir o paradeiro de Mia Orlov - sua colega. 

Para além do enredo político que marca o decorrer da narrativa - expressado através de conflitos entre o fascismo português dos anos 60 e o embate entre o mundo comunista e capitalista - também nos são apresentados os testemunhos de outras personagens complexas, realistas e dinâmicas: Carolina, uma jovem natural da Glória que sonha em ser mais; Fernando, destacado para combater na Guiné; Sofia, presa num casamento abusivo; e uma dúzia de outros intervenientes muito necessários para a dimensão e profundidade da história.



São dez episódios em que as diversas dinâmicas da época são amplamente esmiuçadas, tornando possível ver Glória por cinco vezes e continuar a encontrar diferentes pormenores para debater e analisar. A série não tem medo desta multiplicidade, mergulhando a fundo nos contextos...

(a) bélicos;
(b) da condição da mulher;
(c) raciais;
(d) de ideologia;
(e) de luta de classes;
(f) políticos.

... e estas temáticas fazem sentido e são bem reproduzidas, por serem fiéis a um período que não está assim tão afastado da nossa geração - apenas a cinquenta anos de distância - e em que as injustiças se manifestavam através de todas essas componentes, sem excepção.

Tornou-se na minha série favorita, sem sombra de dúvidas, sendo uma prova daquilo que a indústria cultural portuguesa é capaz de produzir quando a aposta que nela se faz é digna e justa. O ator principal - Miguel Nunes - fez um trabalho irrepreensível, ficando grande parte da qualidade do produto final nas mãos do seu talento e do carisma que revelou ao dar vida a uma personagem que tinha forçosamente de ser magnética e cativante - o Tommy Shelby português, se me permitem. 

Não  podíamos ter pedido um melhor projeto de abertura nas produções originais Netflix.

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