o alquimista - paulo coelho
16:59:00Já escrevi sobre O A l q u i m i s t a três vezes - só neste blog. Talvez porque, de cada vez que o leio, retiro dele uma mensagem diferente e sinto que o compreendo um bocadinho mais; melhor. A verdade é que, desde o primeiro momento em que o conheci, ocupou uma posição especial no meio de tantas outras obras que não sinto a necessidade de revisitar. Porque a magia d'O Alquimista está no facto de ser uma narrativa que depende mais do leitor, do que da personagem principal e suas aventuras.
E eu - as minhas crenças, prioridades e características - mudaram, não fazendo de mim a mesma menina de dezassete anos que recebeu uma cópia antiga do livro, oferecida por uma amiga que achava que "eu deveria ter aquele exemplar que já estava na sua família há décadas, porque falaria mais comigo". Gosto infinitamente mais dele tendo em conta o modo como chegou até mim - algo que nunca mudará e nunca será questionado. Existir alguém que eu adoro e que me conhece o suficiente para me oferecer um bocadinho da sua história, sabendo que eu a iria estimar e preservar atribui um significado acrescido à história de Santiago, o pastor espanhol.
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Ao longo das 230 páginas, acompanhamos " o r a p a z " - o seu nome é mencionado apenas na primeira página e na última - na sua demanda em busca de um tesouro. Sem expectativas e de coração à larga, este protagonista abandona o seu país e ruma em direção ao Egipto (fazendo muitas paragens pelo caminho), de modo a conseguir perceber porque é que tantas vezes sonha com as pirâmides e de que forma estas estão ligadas ao seu destino.
Durante o trajeto, ele aprende a ler os sinais de Deus (ou do Universo, como preferirem), a olhar para o mundo como um todo e a respeitar o seu coração e a sua "Lenda Pessoal".
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Anteriormente, o meu foco principal esteve sempre nas partes do diálogo que eu poderia aplicar na minha vida e adotar como filosofia - é possível dizer que olhei para a obra como se de um livro de autoajuda se tratasse (e pode perfeitamente ser o caso) -, ficando fascinada quando Paulo Coelho apresentou frases como:
"Quando alguém quer alguma coisa, todo o Universo conspira para que se realize esse seu desejo"
ou
"Escute o seu coração. Ele conhece todas as coisas, porque veio da Alma do Mundo e um dia retornará para ela"
Toda essa poesia, o conceito de maktub e aquilo que girava em torno do cumprimento de uma missão central, foram a fonte de todo o meu interesse - provavelmente porque, na altura, foi nessas passagens que encontrei resposta a questões que procurava resolver e, mesmo continuando a reconhecer-lhes o mérito (ainda para mais, tendo elas já um significado tão gigante para mim), estiveram longe de ser o objeto da minha admiração desta vez.
Esta leitura deu-me oportunidade de observar o crescimento do Santiago enquanto ser humano. Começando por estar fechado dentro de uma bolha confortável, "o rapaz" já se revelava a pessoa mais livre e rebelde de pensamento que todas as outras que conhecia. No entanto, quando o nosso mundo se resume ao diâmetro de uma ervilha, isso não quer dizer grande coisa.
Ele era preconceituoso, machista e intolerante - não fazendo de propósito, era apenas uma consequência do tamanho dos seus horizontes - e, após arriscar perder tudo para cumprir aquele que seria o seu destino, começa, lentamente, a revelar mudanças mais humanas e admiráveis. À medida que a relação com o seu "Deus" - "Energia", "Universo" - ia crescendo, o espaço para odiar e julgar ia sendo cada vez menor, mostrando através do seu testemunho tudo aquilo que a fé deve ser.
Se começou o livro a afirmar não "gostar de mouros", cinquenta páginas à frente já dominava a sua língua e era confundido por um quando se deparava com turistas europeus. Se começou a narrativa a julgar que seria fácil impressionar uma mulher, terminou-a revelando estar disposto a aprender que o amor é um sentimento que não envolve posse.
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Não julgo ser necessário repetir pela terceira vez que recomendo a leitura. Desta vez faço-o por diferentes razões, mas continuando a manter a premissa original. O Alquimista vai falar com vocês de maneiras que não falou comigo e, talvez por isso, valha a pena.


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