os primeiros 5 livros do ano
23:40:00Dois mil e vinte dois trouxe de volta a leitora ávida que há em mim - "estiquei-me" e propus-me ler trinta livros no desafio do Goodreads e, a medo que seja areia a mais para minha camioneta, empenhei-me a escolher as melhores companhias para iniciar este ciclo. O meu lugar favorito continua a ser uma biblioteca e as melhores conversas para se terem acontecem às três da manhã, enquanto se discute qual a melhor personagem de um livro em comum.
E, com um balanço positivo, os primeiros cinco livros do ano (com um pouco de batota, porque o primeiro foi terminado a escassas horas das doze badaladas) marcaram o compasso para os 25 que faltam. Façam figas por mim.
«O Quarto de Giovanni», por James Baldwin
O que dizer?
Sinto-me sempre incrivelmente movida por histórias com finais infelizes - há um motivo para ter O Retrato de Dorian Gray e O Grande Gatsby na lista de favoritos - e nunca sei como voltar a mim depois de ter o coração arrancado do peito de uma maneira extremamente violenta (ainda dizem que palavras não magoam).
O Quarto de Giovanni é intemporal. Faz sentido hoje (infelizmente) e terá feito sentido nas décadas que nos trouxeram até aqui. Essa noção só torna o desgosto e a tragédia maiores e ainda mais inevitáveis. Muitas vezes, durante a vida, ouvimos que não se pode amar alguém, caso não nos amemos a nós próprios - histórias como esta explicam o porquê e defendem que a única função dos estereótipos e padrões é limitar a nossa existência e ameaçar a felicidade daqueles que nos rodeiam, trazendo o medo e o egoísmo à tona.
David - o narrador - viveu toda a sua vida em modo sobrevivência, sem perceber que isso seria uma sentença de morte para si e para as suas pessoas. Não sei como vou recuperar disto.
Sinto-me sempre incrivelmente movida por histórias com finais infelizes - há um motivo para ter O Retrato de Dorian Gray e O Grande Gatsby na lista de favoritos - e nunca sei como voltar a mim depois de ter o coração arrancado do peito de uma maneira extremamente violenta (ainda dizem que palavras não magoam).
O Quarto de Giovanni é intemporal. Faz sentido hoje (infelizmente) e terá feito sentido nas décadas que nos trouxeram até aqui. Essa noção só torna o desgosto e a tragédia maiores e ainda mais inevitáveis. Muitas vezes, durante a vida, ouvimos que não se pode amar alguém, caso não nos amemos a nós próprios - histórias como esta explicam o porquê e defendem que a única função dos estereótipos e padrões é limitar a nossa existência e ameaçar a felicidade daqueles que nos rodeiam, trazendo o medo e o egoísmo à tona.
David - o narrador - viveu toda a sua vida em modo sobrevivência, sem perceber que isso seria uma sentença de morte para si e para as suas pessoas. Não sei como vou recuperar disto.
«The Princess Diarist», por Carrie Fisher
Vi os filmes do Star Wars quando tinha 12 anos - não me lembro se pela ordem certa e é difícil para mim explicar qualquer pormenor que fuja à narrativa principal do «Luke, eu sou o teu pai» -, no entanto há qualquer coisa na Carrie Fisher que me faz adorá-la, mesmo sem ser a maior fã - ou conhecedora - da Princesa Leia.
The Princess Diarist é sobre a sua experiência enquanto atriz numa das sagas mais famosas do mundo e ela caminha ao nosso lado enquanto revela como foi lidar com a fama, com Hollywood, com Harrison Ford e com os fãs que nunca falham em lembrá-la do biquini dourado. E eu adorei cada palavra deste livro. Enquanto autora, Carrie tem um estilo cativante, engraçado e simples - a maneira como relembra os momentos importantes da sua vida foi entretenimento puro e fez-me ter a certeza que ela era tudo, menos uma mulher aborrecida.
Ficarei para sempre apaixonada pelo seu poema:
«With him love was easier done than said
Instead of taking you to heart he would take you to bed
And you take what he has to offer lying down
You're getting more involved while he's still getting around
It's all a matter of touch and go
Cause he's one for all and all for show
But after all was said and done
I was playing for keeps and he was playing for fun»
The Princess Diarist é sobre a sua experiência enquanto atriz numa das sagas mais famosas do mundo e ela caminha ao nosso lado enquanto revela como foi lidar com a fama, com Hollywood, com Harrison Ford e com os fãs que nunca falham em lembrá-la do biquini dourado. E eu adorei cada palavra deste livro. Enquanto autora, Carrie tem um estilo cativante, engraçado e simples - a maneira como relembra os momentos importantes da sua vida foi entretenimento puro e fez-me ter a certeza que ela era tudo, menos uma mulher aborrecida.
Ficarei para sempre apaixonada pelo seu poema:
«With him love was easier done than said
Instead of taking you to heart he would take you to bed
And you take what he has to offer lying down
You're getting more involved while he's still getting around
It's all a matter of touch and go
Cause he's one for all and all for show
But after all was said and done
I was playing for keeps and he was playing for fun»
Comecei este livro sem saber exatamente o que esperar: se por um lado adoro a Emily Ratajkowski (e já tinha lido um dos ensaios que constituem esta obra - e gostado dele), por outro várias reviews e opiniões sobre «My Body» diziam que o livro era um espelho para um feminismo performativo da autora, que só revelava um certo privilégio e hipocrisia que ela nunca admitia possuir.
Gostei do livro. Muito.
Não coloquei, em parte nenhuma, o problema teórico sobre o conceito de feminismo, porque não creio que se trate de uma obra que peça que o façamos. Se quiser estudar o tema terei Andrea Dworkin, Chimamanda Ngozi Adichie, ou até Simone de Beauvoir à minha espera. Nesta situação, estive perante um conjunto de ensaios sobre as experiências de vida de uma mulher - e não é justo cobrar à Emily que dedique uma peça autobiográfica à defesa de uma única causa, colocando em causa a autenticidade das suas memórias e dos seus sentimentos. Este livro é sobre ela, não é sobre igualdade de género, mesmo que ela se assuma como feminista - nunca deveremos utilizar esse termo para a reduzir e limitar, especialmente quando isso é o oposto daquilo que se pretende.
Dito isso, este livro causa muita dor. Talvez porque a autora não utilize floreados e goste de ir direta ao assunto. Talvez porque, devido à sua exposição e mediatismo, nunca suspeitássemos que a sua realidade tivesse sido marcada por tantos momentos impactantes e traumáticos. Terminei «My Body» a gostar ainda mais de Emily Ratajkowski: pelos seus testemunhos e pela sua prosa. Um grande ser humano e uma excelente escritora.
Gostei do livro. Muito.
Não coloquei, em parte nenhuma, o problema teórico sobre o conceito de feminismo, porque não creio que se trate de uma obra que peça que o façamos. Se quiser estudar o tema terei Andrea Dworkin, Chimamanda Ngozi Adichie, ou até Simone de Beauvoir à minha espera. Nesta situação, estive perante um conjunto de ensaios sobre as experiências de vida de uma mulher - e não é justo cobrar à Emily que dedique uma peça autobiográfica à defesa de uma única causa, colocando em causa a autenticidade das suas memórias e dos seus sentimentos. Este livro é sobre ela, não é sobre igualdade de género, mesmo que ela se assuma como feminista - nunca deveremos utilizar esse termo para a reduzir e limitar, especialmente quando isso é o oposto daquilo que se pretende.
Dito isso, este livro causa muita dor. Talvez porque a autora não utilize floreados e goste de ir direta ao assunto. Talvez porque, devido à sua exposição e mediatismo, nunca suspeitássemos que a sua realidade tivesse sido marcada por tantos momentos impactantes e traumáticos. Terminei «My Body» a gostar ainda mais de Emily Ratajkowski: pelos seus testemunhos e pela sua prosa. Um grande ser humano e uma excelente escritora.
«Os Sete Maridos de Evelyn Hugo», por Taylor Jenkins Reid
É justo dizer que me sinto traída por este livro? Esperava algo muito melhor, devido a todo o sucesso que ele conquistou, mas terminei-o com a sensação que não foi suficiente. Esteve muito longe de ser suficiente, aliás.
A década escolhida pela autora fascinou-me logo de início e eu vi-me entusiasmada para conhecer mais sobre esta versão de Hollywood dos anos 50 (e 60), enquanto Chet Baker tocava como banda sonora da minha leitura. No entanto, o livro é muito pouco visual para uma narrativa que se situa no sítio e na altura mais glamorosos da história do Cinema (e do storytelling) - coloco a culpa nas constantes viagens no tempo que não me deixaram criar uma relação com as personagens e com o ambiente, estou genuinamente cansada de ler «passado 2 anos», «no mês seguinte», «uma década depois».
Para aumentar a minha desilusão, olho para a Evelyn como uma personagem muito pouco dimensional, em vez do furacão que me prometeram. As suas únicas características devidamente exploradas foram (a) a sua necessidade de ser famosa e rica; e (b) a sua relação com o sexo. Todas as outras dimensões que ela deveria ter - enquanto ícone da cultura pop - foram preguiçosamente apresentadas em frases curtas e descrições diretas e denotativas que nunca se verificaram na realidade.
O número de casamentos (7) foi utilizado para chamar à atenção em diversas ocasiões, servindo de protagonista do livro, sendo até o principal foco da dita biografia, mas depois apenas uma dessas relações foi construída, explicada e merecedora de suficiente atenção - eu entrei nesta história a querer saber mais sobre os casamentos e enquanto uns deles só duraram dois capítulos, os restantes só duraram duas páginas.
A «alma gémea» é uma pessoa absolutamente detestável, cada página ocupada por essa pessoa deu-me vontade de arrancar os olhos. A personagem que nos apresenta a este universo é também ela ridiculamente aborrecida - fiquei com a impressão, talvez errada, que todo o esforço empregado em TENTAR construir uma Evelyn mítica e icónica resultou apenas numa Monique invisível e oca.
Dito isto, acho que, se me tivesse cruzado com «Os sete maridos de Evelyn Hugo» sem esperar a obra de arte do século, não teria sido tão dura com as minhas opiniões. Mas não fiquei fã.
A década escolhida pela autora fascinou-me logo de início e eu vi-me entusiasmada para conhecer mais sobre esta versão de Hollywood dos anos 50 (e 60), enquanto Chet Baker tocava como banda sonora da minha leitura. No entanto, o livro é muito pouco visual para uma narrativa que se situa no sítio e na altura mais glamorosos da história do Cinema (e do storytelling) - coloco a culpa nas constantes viagens no tempo que não me deixaram criar uma relação com as personagens e com o ambiente, estou genuinamente cansada de ler «passado 2 anos», «no mês seguinte», «uma década depois».
Para aumentar a minha desilusão, olho para a Evelyn como uma personagem muito pouco dimensional, em vez do furacão que me prometeram. As suas únicas características devidamente exploradas foram (a) a sua necessidade de ser famosa e rica; e (b) a sua relação com o sexo. Todas as outras dimensões que ela deveria ter - enquanto ícone da cultura pop - foram preguiçosamente apresentadas em frases curtas e descrições diretas e denotativas que nunca se verificaram na realidade.
O número de casamentos (7) foi utilizado para chamar à atenção em diversas ocasiões, servindo de protagonista do livro, sendo até o principal foco da dita biografia, mas depois apenas uma dessas relações foi construída, explicada e merecedora de suficiente atenção - eu entrei nesta história a querer saber mais sobre os casamentos e enquanto uns deles só duraram dois capítulos, os restantes só duraram duas páginas.
A «alma gémea» é uma pessoa absolutamente detestável, cada página ocupada por essa pessoa deu-me vontade de arrancar os olhos. A personagem que nos apresenta a este universo é também ela ridiculamente aborrecida - fiquei com a impressão, talvez errada, que todo o esforço empregado em TENTAR construir uma Evelyn mítica e icónica resultou apenas numa Monique invisível e oca.
Dito isto, acho que, se me tivesse cruzado com «Os sete maridos de Evelyn Hugo» sem esperar a obra de arte do século, não teria sido tão dura com as minhas opiniões. Mas não fiquei fã.
«O Banquete», por Platão
Analisando a situação de forma imparcial: se eu convidasse os meus amigos para um jantar e, depois de já toda a gente ter bebido um copo (ou dois), propusesse o passatempo de debater o significado e a origem d'O Amor, iria ter respostas como:
«O amor é uma merd*»
ou
«O amor é o Timothée Chalamet em Call Me By Your Name»
ou ainda
« O amor é o que sinto por este copo de gin»
Nunca chegaríamos a conclusões como «o amor é o intermediário entre o mortal e o imortal», ou «o alvo do amor é gerar e criar no belo», mas a verdade é que os meus amigos também não são filósofos da Grécia Antiga.
Requisitei este livro na biblioteca e arrependi-me de o ter feito nos primeiros cinco minutos de leitura, porque senti a necessidade de sublinhar e rabiscar até ao final e não consegui fazê-lo (em compensação tenho um bloco de notas cheio de gatafunhos sobre aquilo que Sócrates e os amigos acham que é o Amor).
A premissa é interessante e atual - até hoje cada um de nós tem a sua própria definição do conceito e a *magia* reside mesmo nessa pessoalidade que nos obriga a todos a experienciar os sentimentos de formas absolutamente diferentes.
O ex-namorado do Sócrates aparecer no final e fazer um discurso embriagado sobre o término da relação também foi engraçado: gosto de um bom momento telenovela em qualquer livro de filosofia.
«O amor é uma merd*»
ou
«O amor é o Timothée Chalamet em Call Me By Your Name»
ou ainda
« O amor é o que sinto por este copo de gin»
Nunca chegaríamos a conclusões como «o amor é o intermediário entre o mortal e o imortal», ou «o alvo do amor é gerar e criar no belo», mas a verdade é que os meus amigos também não são filósofos da Grécia Antiga.
Requisitei este livro na biblioteca e arrependi-me de o ter feito nos primeiros cinco minutos de leitura, porque senti a necessidade de sublinhar e rabiscar até ao final e não consegui fazê-lo (em compensação tenho um bloco de notas cheio de gatafunhos sobre aquilo que Sócrates e os amigos acham que é o Amor).
A premissa é interessante e atual - até hoje cada um de nós tem a sua própria definição do conceito e a *magia* reside mesmo nessa pessoalidade que nos obriga a todos a experienciar os sentimentos de formas absolutamente diferentes.
O ex-namorado do Sócrates aparecer no final e fazer um discurso embriagado sobre o término da relação também foi engraçado: gosto de um bom momento telenovela em qualquer livro de filosofia.

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