Malcolm & Marie, 2021

21:26:00

 

Encontramo-nos estacionados num período de escassez cinematográfica – se o ano passado estava a sair do cinema sem querer acreditar na obra prima que é Parasite, dois mil e vinte e um é tempo para estar no sofá, à espera que as novidades apareçam no catálogo da Netflix e a recordar com nostalgia as telas gigantes e salas escuras. Durante essa rotina típica de pandemia, Malcolm e Marie estreou
Escrito e realizado por Sam Levinson – criador da série Euphoria -, foi gravado em catorze dias, por uma equipa composta por apenas vinte e dois membros, o elenco resume-se a Zendaya e John David Washington, também eles produtores do filme. Classificado como drama romântico, é uma história de uma hora e quarenta e cinco minutos sobre um casal que, honestamente, devia considerar terminar a relação.
A narrativa desenrola-se a preto e branco, no decorrer daquela que seria a melhor noite da vida de Malcolm – um cineasta que acabou de lançar um sucesso de bilheteira que conquistou os principais críticos americanos -, mas que rapidamente se torna num campo de batalha entre ele e a sua namorada, Marie. Juntos há anos, ambos têm como passatempo guardar rancores que, na altura oportuna, lançam como armas de arremesso com o propósito de ganhar uma discussão, deixando para trás um rasto de destruição emocional e psicológica.

Crubrutal e – perdoem-me o termo gasto – tóxico. O clima tenso é constante, porque mesmo quando a confusão acalma existe a sensação de incerteza e desconfiança, bem como um registo passivo-agressivo que Malcolm e Marie nunca são capazes de abandonar. Eles estão completamente quebrados e têm noção disso, competindo para saber qual sai mais magoado pela porta principal.
O decorrer do filme é marcado por diversas temáticas: cinema, racismo, toxicodependência, lealdade, arte, feminismo, etc… Todas elas abordadas num contexto complexo e profundo que, passados vinte minutos, se torna cansativo. Em nenhuma das questões se chega a um consenso, tampouco ocorre um pedido de desculpas quando limites são ultrapassados. É uma metáfora constante em que cada um dos elementos se assume o lado oposto do cérebro do outro – mais facilmente conseguiria conceber este enredo entre duas faces da mesma moeda (estilo Tyler Durden em Fight Club), visto que a minha primeira teoria relativamente a Malcolm & Marie foi a sua aproximação e semelhança a uma luta interna – todos somos um pouco Marie, todos somos um pouco Malcolm e todos temos tendência para, de vez em quando, sermos incompreensíveis até para nós próprios.
Enquanto manifestação artística, fez o seu trabalho. Fez-me sentir e deixou-me fragilizada perante as situações que vi desenrolarem-se à minha frente – não despontou em mim pensamentos felizes, porque algumas histórias de amor encontram a sua beleza na delicadeza e vulnerabilidade de um par profundamente incompatível. No entanto, se o assunto em questão são dramas românticos de elenco restrito: o meu coração baterá sempre mais depressa por Ethan Hawke e Julie Delpy, a sua Viena, a sua cor, a sua simplicidade e o sorriso que deixa no final.

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