small acts of love & kindness

09:41:00

À primeira vista, quase nunca escrevo sobre a m o r. Fazê-lo às claras, sem metáforas, reflexões e disfarces parece-me inútil e despropositado – de que serve falar de amor se ele não se apresentar transformado num dos seus milhares modos de manifestação?

Gosto de o vestir com  n o t a s   m u s i c a i s, dá-lo a conhecer mal ele sai ao mundo através de um acorde musical da guitarra de George Harrison; insinuar que ele é o   s o m   d a   g a r g a l h a d a  que Holly oferece a Paul, quando ele a leva ao Tiffany’s; sugerir que está escondido por detrás das  p r o v o c a ç õ e s  que Lizzy faz a Darcy, ao longo das páginas de Orgulho e Preconceito.

Para mim, ele é qualquer coisa e está em todo o lado – no que escrever uma frase pateta num canto insignificante da internet representa para mim, na capa dobrada e cansada do meu livro preferido, na estrada que vai dar a casa, no cheiro de pipocas acabadas de fazer numa sexta-feira à noite.

Eu quero – tento, rascunho e insisto - escrever sobre amor (à minha maneira camuflada), desde a primeira letra que aprendi a desenhar. Porque quando o tento resumir por palavras compreendo todo o [meu pequeno e protegido] universo - como se precisasse dessa transformação e materialização para saber o que se passa comigo: de repente, deixa de ser abstracto.


E essas frases soltas (e esses testamentos) estão guardados em ficheiros escondidos em pen drives, cadernos e caderninhos, diários e agendas e notas e memorandos residentes em todos os telemóveis cor-de-rosa com autocolantes que possuí desde os dez anos até ao presente. A l i   e s t o u   e u. Ainda que grande parte se tenha perdido para sempre (ou até ao reaparecimento das pequenas chaves que dão acesso aos mais secretos dos diários) – aquela sou eu, porque nunca na vida escrevi uma palavra que revolvesse em torno de outra temática.  


Será que aquilo que somos é uma mistura daquilo que amamos? Somos definidos por todas as coisas que protegemos e cultivamos?

Gosto de acreditar que sim. E gosto de escrever sobre isso.

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