o retrato de dorian gray - oscar wilde
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Não me recordo da primeira vez que ouvi falar sobre O Retrato de Dorian Gray. É como se a noção da existência e da grandiosidade da obra fosse uma informação que sempre esteve presente - o meu cérebro veio assim da fábrica. No entanto, conhecendo o autor, sempre achei que ainda tinha de crescer muito mais para conseguir perceber plenamente a sua mensagem - e reconheço que não estava enganada, teria-me sido completamente impossível compreender a obra na totalidade aos dezasseis anos.
Tropecei numa edição antiga do livro, numa mesinha da praça, durante uma feira. Com uma capa trabalhada e perfeita, embalada num plástico transparente que me indicou que aquele exemplar - com muitas mais décadas de vida que eu - nunca antes tinha sido sequer aberto. Trouxe-o para casa pelo valor de um euro, nem acreditando que uma das maiores obras literárias de sempre me tinha custado o mesmo que um café.
Dorian Gray, um aristocrata inglês do final do século XXIX, cativa o pintor Basil Hallward com a sua extrema beleza, posando para um retrato que, mais tarde, mudará o rumo da sua vida. Graças a esta amizade, Dorian conhece Lord Henry Wotton, um nobre que lhe apresenta uma perspectiva hedonista - prazer como bem supremo - da vida e o transtorna ao ponto de fazer o jovem desejar que a sua aparência se conserve de forma permanente - transferindo todos os sinais do tempo para o seu "eu" presente no retrato. Deste modo, o protagonista segue uma vida guiada exclusivamente por prazeres passageiros, corrompendo a sua alma e transformando a pintura de Basil numa versão diabólica de si mesmo.
É um livro terrivelmente poderoso e profundo, com os diálogos mais inteligentes que já li na vida. O choque de opiniões entre as personagens é dramático, extremo e inacreditavelmente genial, deixando-me com a sensação que fiquei dez vezes mais esperta só de o ler. A sua complexidade e intelectualidade é natural e apropriada, o que me fez querer ainda mais acompanhar o raciocínio das personagens e aproximar-me das suas emoções. O Retrato de Dorian Gray é, sem discussão nenhuma, a melhor obra com que já me cruzei. No entanto, não me arrependo, de todo, por ter esperado anos até conhecer a história, sendo que tenho consciência que, em nenhum momento se não o presente, estive preparada para ela.


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