9 girls + a classroom
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Existe uma ideia pré-estabelecida na sociedade ocidental que proíbe a ausência de, pelo menos, um membro do sexo masculino em qualquer sala, sob o risco de explosão nuclear. Cresci a ouvir que muita mulher junta dá sempre problema, que as mulheres são incapazes de nutrir amizades genuínas entre si e muitas outras variantes da mesma premissa: a existência de um ambiente cem por cento feminino é, por algum motivo, um grande problema. Na verdade, espalhar esse rumor hediondo que as mulheres são uma espécie altamente venenosa tem sido uma arma eficaz no que toca a colocar raparigas de costas voltadas para outras raparigas - começamos a acreditar que carregamos mesmo um frasquinho de maldade líquida dentro do estojo de maquilhagem. Vivemos numa sociedade que ensina a competição como valor máximo a meninas pequenas, incutindo nelas uma cultura de comparação constante e doentia que bloqueia qualquer espécie de confiança, ou empatia com as outras concorrentes deste jogo (que nem sequer pedimos para jogar).
Há muito poder na descoberta que um grupo saudável e amigável pode existir sem a presença de um mediador externo. Na realização de que não se é uma arma e é ridículo andar por aí a disparar com o intuito de ser a rainha de coisa nenhuma.
O meu curso é uma licenciatura de três anos, onde durante a primeira metade existem aulas num só ramo comum e no tempo restante escolhemos entre jornalismo, ou comunicação organizacional. Essa escolha reduziu a minha turma a 9 raparigas. Nove personalidades diferentes, vindas de nove cidades diferentes, com nove maneiras diferentes de ver o mundo. E, chocante ou não, estamos bem assim. Pela primeira vez, em todos os anos de escola que se antecederam, estamos a ser incentivadas a trabalhar umas com as outras e não umas contra as outras, o que se torna numa fonte inacreditável de motivação quando tudo o resto falha.
As mudanças são instantâneas quando se explica a uma pequena parte da sociedade que um grupo de raparigas não é perigoso, volátil, ou inútil - é simplesmente um grupo. Com tanta capacidade, potencial e probabilidade de sucesso como qualquer outro. O problema real está na maneira como sempre se ensinou, desde cedo, a todas as raparigas que o melhor era terem medo umas das outras, quando na verdade não existe nenhuma competição, nenhum motivo para temer, ou para duvidar logo à partida. Quando na verdade podíamos estar a trabalhar juntas há muito mais tempo.


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